quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Levantou Poeira

Quarta-feira à noite, jogo contra o Atlético Mineiro, promessa de casa cheia. Não há como não lembrar de 2003. Se a memória ainda ajuda sem o Google, foi em uma quinta-feira de novembro que pude compreender a rivalidade entre o Urubu e o Galo. Naquela noite, meu pai viajava a trabalho e o rádio era a única companhia. Nas ondas dele, com Luiz Penido, vibrei com Andrezinho e Zé Carlos virando o jogo nos minutos finais ao som de "Levantou poeira" no Maraca. 3 a 2!

Desde então, jogo contra o Atlético tem que ser levado a sério. O desta quarta foi. Carregados pela torcida, em considerável inferioridade em relação a 2003 pelo padrão das arenas, o Fla viu que sua maior força neste campeonato vem das arquibancadas. Mais de 40 mil rubro-negros pagaram pra ver. 

Em campo, disposição, raça, organização defensiva e pouquíssima qualidade no campo ofensivo. Cáceres e Canteiros cercavam como típicos volantes, mas na tomada de bola, nada de continuidade. Foi então que, subitamente, após um lance de perigo, aos 10 minutos do segundo tempo, a Nação entendeu que ela precisava ser a continuidade. 

Perdendo por 1 a 0, o rubro-negro sufocou mais pelo barulho que pela confiança. Aos 20, Eduardo da Silva, ou só Eduardo - talvez Eduardovic - entrou na área e foi derrubado. Pênalti. Léo Moura, contando com o "Sobrenatural de Almeida", deixou tudo igual. 

Se a massa já se fazia ecoar, o volume aumentou. A intensidade também. Bastaram 5 minutos de espera para que o croata desempatasse. A polivalência que vinha das arquibancadas era suficiente para atuar defensivamente em campo, coordenando movimentos de ataques sonoros fora dele.

Uma vez mais contra o mesmo Atlético-MG, o Maracanã testemunhou que a torcida do Flamengo levantou poeira e que, com ela, o time é muito capaz de dar a volta por cima.



quinta-feira, 24 de julho de 2014

E agora, professor?

O Flamengo, poucas vezes nos últimos 5 anos, viveu uma semana tão conturbada. Com um detalhe: ela está a 2 dias e algumas horas de acabar. Desde a previsível derrota e do imprevisível futebol apresentado foi um combo de ações impensadas. Agressão a jogador, rescisão comunicada e desmentida, diretor de futebol "não sabendo" da dispensa ao jogador, Presidente do clube garantindo a permanência do jogador e do técnico. Três longos dias depois, demissão em comum acordo e Ney Franco, com 7 partidas sem vitória, desejou sorte ao clube. De todos os envolvidos, a parcela dele é a menor, o que não significa que seja pequena.

Na mesma manchete que anunciava a demissão, estava o nome do "novo técnico": Vanderlei Luxemburgo. Racionais e passionais fervilharam suas opiniões e este escritor, que veste as mesmas cores de Luxa quando ele não tem comissão técnica ativa, listou pontos positivos e negativos que a contratação pode render ao Fla,  que já soma seis técnicos em 19 meses.

A favor:

1) Luxemburgo sabe o que é um time grande. Está acostumado com a pressão e tem como motivação o fato de voltar a fazer um trabalho em que se destaque.

2) É, antes do profissional, torcedor e sócio do clube. De alguma forma, isso mexe com ele, que nunca escondeu a preferência.

3) Vai comandar um time sem estrelas. Sempre criticado pelo ambiente desgastante com craques, o professor pode ter a autonomia que já não tinha em 2012, mesmo com a classificação do time à Taça Libertadores.

4) Em 2010, quando iniciou a última passagem pelo clube, o treinador assumiu o time em uma situação não muito diferente. Ameaçado e no Z-4, Luxa conseguiu salvar o clube e seguiu no trabalho por mais uma temporada em que também foi bem.

5) Tem o respaldo de pessoas importantes dentro do clube e contará com uma eventual paciência da diretoria. Ao que parece, terá tempo para trabalhar.

Contra:

1) O fato de ter sido o principal eleitor de Patrícia Amorim não foi tão digerido pelo atual presidente, que se mostrou aberto a mudanças, mas pode exigir além do que fez com os outros técnicos.

2) Alguns jogadores que estavam com ele entre 2010 e 2012. Resta saber se eles participaram da fritura que tirou-o do Fla. Alterações, neste caso, são fundamentais.

3) Se Luxa for bem, o Flamengo estará diante de um dilema: Como dar carta branca à montagem do elenco a um técnico acostumado a montar times caros tendo o discurso e a prática da austeridade?

4) A longo prazo, Luxa não tem rendido. Seria ele um bombeiro?

5) A desconfiança com o seu auxiliar. Embora, na teoria, o auxiliar não tenha papel importante, na prática ele pode alertar sobre circunstâncias pontuais e Luxemburgo passa a impressão de que está oferecendo um cargo de estagiário a Deivid.

O que pesará mais? Só saberemos quando chegar o fim. Do campeonato, ou do contrato, que tem rescisão baixa pelos padrões Luxemburgo. E agora, professor?

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Da beira ao caos após 45 dias: Salve-o se puder

Três zagueiros, dois destros, dois canhotos, um volante, um atacante de velocidade e o 9 típico. Elogios à forma de trabalhar, releases bonitos, treinos puxados. De longe, não parecia que o Flamengo de Ney Franco ocupava a 19ª posição. Tudo estava muito hospitaleiro, tranquilo, sereno para ser Flamengo. A Alemanha e suas cores não poderiam fazer milagres.

O jogo contra o Atlético Paranaense mostrou que faltou pólvora ao clube que faz de um copo cheio de água, um dilúvio, quando todos os flashes estavam na Holanda na Gávea. Mostrou também que fazer isso agora só tornará a situação ainda mais delicada.

Aos que postam a ridicularização da posição em que o time ocupa no campeonato em redes sociais, uma dica: Até a barba do treinador cresceu mais que o futebol do Flamengo nestes 45 dias. Treinador que, diga-se, converge todas as matérias e títulos à relação com a música de sua autoria. Inclusive este. Também pudera: são 3 empates e 3 derrotas nesta segunda passagem. Mas a culpa é dele?

O Flamengo entrou em campo evidenciando falta de qualidade técnica, que é quase uma doença crônica. Por mais que você trate, ela volta e pode piorar a situação. Piorou. De penúltimo para último. "Em 2007, estivemos perto disso", dirão os mais exaltados. Fábio Luciano e Roger - em boa forma - deram novo espírito ao clube, cabe lembrá-los.

A atuação de ontem não deixa sequer uma pequena impressão de que haverá reversão no quadro. O caos está muito além da beira. Talvez, Eduardo da Silva e Canteiros não sejam tão salvadores quanto o torcedor queira. Porque esperar, neles, a redenção pode significar o fundo.

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Massacre de 08 de Julho

Acabou. E que bom! Essa foi a sensação de todos que estavam torcendo, assistindo, se divertindo, analisando. Não importava muito o quanto cada um sabia de futebol se, no campo, o que se via era um rolo compressor em vermelho e preto. Que ironia!

Este post não tem e não terá clima. Talvez tenha clímax. Ou anticlímax. Eu não estava em 1950. Muitos de nós não estávamos. Não precisamos, porque vimos algo 7 vezes pior. Doeu! Dói!

Talvez por levar o que a maioria pensa ser um entretenimento a sério e analisar time a time, brincar de desenhar esquemas táticos, enfim, ser um PVC não sendo, muito menos tendo a pretensão.

Doeu porque numa dessas brincadeiras a sério parecia claro que era preciso entrar em campo como time pequeno. Como? Com três volantes e furando a bola para qualquer direção.

Evitaria a derrota? Muito provavelmente não. Evitaria a humilhação? Com certeza.

Resolvemos encarar a Alemanha de igual para igual sem termos um time a altura. 4 gols em 6 minutos. Vilão? Em campo? Hoje não. Se em 2010 o dedo apontava Júlio César e Felipe Melo, o mesmo dedo, hoje, não tem para quem apontar em campo.

Dói porque a esperança existia justamente por um técnico especialista em estratégias. Em uma tarde, ele não viu o seu craque e quis insistir no esquema.

Você, que quase não acompanha futebol, pode falar que o IDH da Alemanha é maior que o do Brasil, que a taxa de urbanismo, lixo no chão, obrigado, com licença e por favor são mais positivas que no Brasil. Você não sabe o que é o esporte. Porque a derrota dói, leva às lágrimas, espanta a impessoalidade, ressalta a impotência.

O Massacre de 08 de Julho será lembrado por um time que deixou espaço em campo. E um buraco no meu coração.

Peço desculpas por este não ser um texto normal, mas sim, um desabafo.

Até 2018, Copa! Foi muito bom tê-la aqui!

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Uma tarde de redefinições

Eu imaginava que sabia o que era futebol, até que veio o dia 28 de junho de 2014. Na verdade, este texto é uma grave petulância de tentar limitar aquilo que se eternizará na memória. Há quem diga que é uma forma de eternizar, diante da limitada lembrança que temos.

9h - Padrão Fifa na área. Se derrubar, é pênalti! Forte esquema de barreiras, mas uma enorme gentileza em nos deixar o mais próximo possível do Mineirão. O dia já se desenhava ensolarado e com festa. Cerca de 1500 pessoas já estavam lá. Alguns com placas na mão à procura de ingressos. Intermináveis 60 minutos!

10h - Os portões se abrem! Já somos mais de 30 mil. Cada qual procura seu portão e, de fato, somos bem orientados. A desejar? A verificação dos dados e da autenticidade da minha condição, isto é, a própria Fifa dá margens para falsificação de deficiências e de ingressos, uma vez que eles são nominais.

10h15 - Assento localizado. Todo e qualquer detalhe é pouco. Homens engravatados testam a trajada tecnologia. Testam, retestam. Tudo em ordem, menos o traje. O sol ainda parecia se comportar. O tempo é que parecia o problema.

10h35 - Lojas e preços Fifa! Que eles sabem organizar e fazer Marketing, tanto eu, que queria a copa, quanto você que dizia não ter copa, não podemos negar. A loja oficial é tão atraente que atraiu até o meu esquecimento para com o feijão tropeiro. Ainda bem!

12h15 - Tudo observado no telão e... jogadores de azul no vestiário. Uma imagem que se torna real dali a alguns instantes. Da tevê, ao campo! Era ali mesmo! Estava redefinida a palavra emoção. Batem bola por 20 minutos. O suficiente para terem seus nomes gritados. Em especial, o craque e o goleiro, como que em um exercício de previsão.

12h55 - A música toca e redefine o conceito de trilha sonora. Que sejam pedidas todas as desculpas aos musicistas leitores, mas a introdução da Fifa foi, até ali, o mais belo arranjo da tarde. Times perfilados! Hinos a tocar. Redefinida a expressão "jogar junto." Não deixamos os chilenos continuarem o hino e, se você acha que isso é uma reunião diplomática, deve pensar que a região glútea do Hulk faz uma enorme diferença no jogo. Na nossa vez? Cada um deu o que tinha de tom, voz, melodia e coração!

13h00 - Correr para onde? Rolou! Dali sairia só um time vivo. Talvez, só alguns vivos!

13h17 - Jogo truncado e, com bola na área, ninguém viu gol contra. Sim! O gigante David Luiz já tinha seu nome e adjetivos reservados aqui! Em frente, a plenos pulmões comemoramos com pessoas as quais nunca nos conhecemos. Fomos os melhores companheiros uns dos outros! Tudo parecia caminhar para uma tranquila vitória.

13h38 - O time se comportava de forma que a dupla de defesa tocasse mais vezes na bola que quaisquer outros jogadores brasileiros em campo. Já não ultrapassávamos o meio-campo com tanta frequência. Era um indício. Foi uma impotência, vendo tão de perto, não poder esticar mais a mão de Júlio César. Só se ouvia os 8 mil chilenos! Que raiva! Visitantes fazendo festa, comendo do bom e do melhor e ditando o ritmo dentro da sua casa???

13h47 - Fim de primeiro tempo. Comer? Beber? Que nada! Entre uma foto e outra, a incerteza do resultado.

Vem o segundo tempo e o relógio é esquecido. O Chile é quem domina o jogo como o sol domina o lado em que estamos. As ligações diretas mostram um time sem variação e sem saída. Uma escapada de Arandiz e a clara impressão de que a copa se escorria pelas mãos do Júlio e de todos nós. Redefinido o conceito de reflexo.

Entre uma tentativa de gol e o fim do jogo, unanimidade: Que acabe logo!

Mais 30 minutos. Só por isso, já valeu o ingresso. Mas, e a classificação? Não parecia estar tão perto assim. O sol ainda castiga, mas passa a ser um detalhe. 30 minutos tensos? Talvez nem tanto quanto o vigésimo oitavo deles. A 20 metros, Pinilla vira e a bola tinha endereço. Só não tinha selo de correspondência. Trave. Certeza de pênaltis.

A torcida era para o gol da esquerda. E assim foi. A partir dali, as fotos registradas de um gol vazio antes o jogo tornaram-se históricas. Cadê a lista? Só na tevê!

Vem David Luiz. Confiei. Respirei. Gritei. De longe, todos de vermelho eram inimigos. Lembre-se: Futebol não é política. Nada contra a cor. Nenhum de nós sabia mais quem eram os chilenos. Sabíamos quem era Júlio César.

E ele veio. O gol parecia menor. Confiei. Respirei. Gritei. Assim foi na subsequente cobrança chilena. Redefinimos a palavra confiança, mas, em seguida, a sensação de medo. Willian para fora e Hulk sem direção. Incrível? Ele não, a situação, sim.

Veio o menino. Neymar caminhava e o coração já não tinha mais espaço para bater. Correu. Ufa! A responsabilidade agora era de Gonzalo Jara - só descoberto depois - com 50 mil brasileiros no gol da esquerda. Restava-o tirar do gol.

O selo da bola na prorrogação também faltou à cobrança do zagueiro. Trave. Sem reação certa, copos voam, olhamos uns aos outros como se fôssemos os melhores amigos. 50 mil amigos! 50 mil apaixonados! Estamos lá. A odisseia continua. Redefinimos o conceito de emoção. Reafirmamos o amor por um esporte, que ainda permite protocolos quebrados.

De lá entregamos a Fortaleza. E que não seja preciso tantas redefinições até o caminho da taça.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Tenho apenas duas mãos e o sentimento (da Copa) do mundo

"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo", eternizou o eu-lírico de Carlos Drummond de Andrade. Contextos à parte, talvez essas sejam as palavras que mais se aproximam do que se passa.

Consideravelmente limitado, tentei imaginar e responder o que é estar em uma Copa do Mundo? Não consegui. O fato, por si só, é histórico. Para um amante do futebol, ao quadrado. Mas faltava algo.
Faltava o sentimento do mundo. E o mundo sentia e apostava que a Seleção Brasileira passaria em primeiro do grupo.

Com esse sentimento, veio o risco. Jogo 49 - Winner A x Runner Up B - dizia o aviso Padrão Fifa. Era esse, ou nenhum outro. Apostei. Sem chutes em bolão algum, joguei minhas nada baratas fichas em uma substituição: sai Winner A, entra "Brazil", mantendo o idioma Fifa.

Hoje, quando Ericksson, que não é sócio da telefonia, tampouco tem parentesco com o ex-técnico inglês, encerrou o jogo, o sonho ganhou forma. E sentimento. Não posso antecipar, sequer, a reação diante da música introdutória da Fifa. Imagina na capela? Todos os esforços tentam vislumbrar. E nada.

Ah, como é grande esse sentimento do mundo! Como são apenas essas duas mãos, que, se fossem maiores, adiantariam o relógio. O horizonte talvez não esteja tão belo para o time de Felipão, mas pode ficar a partir de então.

E se não ficar? Terei apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Seria um misto de egoísmo e hipocrisia tratar o resultado como um detalhe, mas não me arrisco em categorizá-lo. Da entrada ao apito final, serão mais que duas mãos. Serão milhares no peito, outras tantas a empurrar e ainda mais a reclamar, abraçar, gritar, enxugar lágrimas. Quem mandou o sentimento ser desse tamanho?

Hoje, tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Da Copa do Mundo!

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Sebastianismo do outro lado da Península

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2014. O maior estádio do mundo assistiu à queda do imponente futebol atual campeão do mundo. O toque de bola, a mobilidade, o domínio territorial pareciam inúteis, vis, desprezíveis.

Será?

Este que vos escreve foi para a casa relutando a acreditar que o domínio do olé, tão recorrente nas touradas, acabou nos gramados. A teimosia, resultante da 'não-crença', provocou o título deste post.

1557: D. Sebastião, cheio de vigor, passa a ter o direito de herdar o reino português. 2008: A Seleção Espanhola, carregada de potenciais, passa a ter o aval de comandar o futebol. Ambos são menores, ainda não tinham tanta maturidade para a missão as quais foram incumbidos. Mas cresceram.

Se o rei estava ávido em readquirir a glória passada em busca de 'terras infiéis', Xavi, Iniesta, Busquets, Puyol e David Villa almejavam conquistar um território já esquecido: O do futebol bem jogado, sonhado por todo aquele que um dia ocupara o posto mais alto dos campos.

Ambos muito bem sucedidos. Até Alcácer Quibir. Ah, o destino! Foi lá, na África, onde os espanhóis alcançaram o ápice, que o rei nunca mais voltou. Ou ainda pode voltar?

Foi lá, onde o futebol presenciou o ápice do futebol mundial, que os espanhóis conheceram a sua Quibir. Caíram! Caíram? Se a pergunta ecoa duvidosa no Brasil, imagine em Madri?

Certamente, os espanhóis estão convictos de que é uma fase e que poderão resgatar o posto de glória que atingiram, vencendo críticas ao toque de bola, à mobilidade, ao domínio territorial, que jamais poderão se repetir.

Hoje, o Sebastianismo, sim, provocou a anexação de Portugal à Espanha, diferentemente do que almejavam os portugueses com a alimentação messiânica do mito.